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Poesia: Sangue nas paredes

Meu querido humano, por quanto tempo pode uma vida ficar suspensa?
Um momento congelado no tempo, do qual simplesmente não queremos sair.
Sua sensibilidade é interessante.
Sua sinceridade, terrível.
Tão inocente e tão letal.
Pode algo ser mais perigoso?
Pessoas boas são perigosíssimas.
São imprevisíveis.
São egoístas.
Fazem o bem, mas cobram por isso.
E as vezes o preço é alto demais para o resto de nós.
Querido, o que há conosco?
Por que ser sistematicamente pisado? Diariamente
ser massacrado e como num jogo de videogame, ressurgir novo em folha no dia seguinte?

De longe, tudo parece tão bom.
Mas isso vai nos matando aos poucos.
Destruindo nossa energia vital. Nos fazendo envelhecer.
E você acha sinceramente que um final de semana nos cura?
Acha que um feriado prolongado mata o que nos contaminou durante a semana toda?
Se você acha isso, querido, você é ingênuo. Mais um humano sonhador.
Mas algo me diz que você não pensa assim.
Você olha para ele e o quer matar.
Mas calma, você disfarça bem.
Eu disfarço bem.
Incrível como o Mundo vive sob um fino véu de aparências.
E se estivéssemos em outra situação, haveria sangue nas parede.
Querido, sinto sua dor.
Vejo o que se passa.
Imagino por onde você andou.
E tenho certeza: Isso também passará.

Bloody kisses…
Anita.

 
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Publicado por em setembro 20, 2010 em Poesia

 

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Diário: Longa Madrugada

Meu querido humano,

Aqui fala Anita, depois de tanto tempo.

Sabe, as vezes acho que estamos dançando.
E parece uma compassada valsa, requintada dança, com passos regulares.
Mas que tédio!
Noutras vezes, dançamos Tango, apaixonado ritmo, corpos entrelaçados.
Ciúme, sangue, morte.
Tão assustador!
No entanto, o que mais me preocupa é quando não estamos dançando,
Quando me parece que ao menos estamos de mãos dadas,
Ao menos, caminhando lado a lado.

Querido, está amanhecendo, e eu espero que você esteja bem.
O céu está tornando azul-marinho, e depois roxo,
Os pássaros estão acordando.
Os humanos ainda repousam.
Eu estou aqui. Uma coruja, assistindo à madrugada.
A mente em disparada. Correndo contra pensamentos sombrios.
Pensando em presas tenras e saborosas,
Do alto da torre de uma igreja em ruínas.

Querido, sonhe! Solte-se!
Acredite que qualquer coisa pode ser real
Acredite que fadas existem.
Acredite que podemos mudar nosso destino.
A qualquer momento, de qualquer forma
É nosso direito buscar o pote de ouro.

Desvendemos o Pais das Maravilhas!
Deixemo-nos carregar para a Terra de Oz!
Ou a Terra do Nunca…
Mas definitivamente, deixemos o Sempre para trás!
Pois o sempre é sempre irritante.
O eterno é muito longo
E o jamais, mentiroso.

Querido humano, em sua terna idade
Você já é um vencedor,
Querido, com seus fantasmas e correntes
Você ainda consegue caminhar.
Querido, com seu esforço para se adaptar
Você cativa a tudo e a todos.

Estamos num baile de máscaras, tente entender.
Todos os dias, caminhando por entre mortais com nossas fantasias
Nossos sonhos, enjaulados em gaiolas de ouro,
Tornando cinza e renascendo a cada segundo.

Estamos uma terra estranha,
Onde sempre seremos estrangeiros,
Onde nunca seremos bem-vindos,
Onde cortamos nossas asas para não atrapalhar a passagem.
Querido, a janela dos seus olhos é de puro cristal
Sonoro, límpido, assustador.

Mais do que olhos de ressaca, olhos de tormenta.
Mais do que doces expressões, olhares de reprovação.
As vezes, Jesus para uma criança. Olhar de piedade.
As vezes, humilde peregrino que, para uma santa, olha com devoção.
Mas querido, quase sempre esses olhos observam uma rosa sem nome, adornada com outras rosas esmagadas,
E esses olhos vêem através da seda carmim, das penas de pássaro, do granito da estátua.
E chegam aos laçarotes e rendas cor-de-rosa da menina, escondida lá no fundo. Chorando e gritando, por ver que seu brinquedo de cristal espatifou-se no chão.

Ah, querido humano. Doce e saboroso humano.
As veias repletas do sangue dos justos….

Demora a amanhecer por aqui. O vento gélido eriça minhas penas.
Ao longe espreito um ratinho suculento,
Mas o deixo para os gatos.

Querido, quando o Sol nascer, estarei livre dessa forma.
Caminharei pelas ruas, tal qual você caminha.
Claro, há o inconveniente da máscara, mas isso é apenas um detalhe.
Já estou acostumada.
O fato é que meu lugar é aqui. Aqui em cima, e será por muito tempo.
Entre as sombras, escondida, observando,

Quando será nosso próximo encontro?
Quando dançaremos de novo?
Valsa? Tango?
Ou talvez uma dança medieval,
Tocando as mãos, como Romeu e Julieta.
Talvez apenas uma rápida troca de olhares.
Sinceramente, espero que você esteja bem
Que minhas garras não tenham te ferido muito
Não sou muito boa em alçar vôo com uma carga sob as patas
Ao menos não que não vá devorar em seguida
Espero que os cortes tenham sarado.
Espero que nos vejamos novamente.
Aqui ou ali.
Ou nos meus sonhos.

Dançando descompassado ou não.
Mas ao menos, juntos.

Yours trully,
Anita.

 
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Publicado por em novembro 8, 2009 em Diário

 

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Poesia: O Sol e A Dama de Gelo

Ah meu mais precioso achado,
Você sim me traz tudo o que é humano.
Tudo o que de bom têm os humanos,
E com isso também me faz humana.

Ah sim, você me faz humana, meu querido!
A cada momento. Mesmo quando eu não gosto.
Quando eu arranho e mordo, quando eu bato e chuto.

Você é minha âncora nesse mar tempestuoso,
E em meio a tempestade é apenas a sua voz que ouço.

Meu querido, esse poema açucarado,
É para o humano mais doce que conheço.
Tão doce que misturado ao meu ácido.
Cria um irresistível azedinho-doce,
Que dói o canto das mandíbulas,
Mas que é uma delícia.

E quem disse que o Amor é fácil?
E quem disse que a Felicidade é simples?
Oras, os poetas amam tantos.
E todos ao mesmo tempo.
Amam sombras e luz

E eu amo você.
A luz das luzes.
O caminho que sigo de olhos fechados,
Porque sinto o seu calor.

Meu querido, quero seguir com você.
Me leve pela mão para longe dessas criaturas,
Me leve para longe dos fantasmas e vampiros,
E cadáveres da minha infância.

Me leve para um passeio.
Me leve para visitar meu irmão.
Me encha de coragem.
Me encha de esperança.
Me emocione.

Meu querido humano, sim você uiva sob a Lua Cheia
Mas há Sol dentro de você.
Há uma luz que eu, Lua que sou, apenas reflito.
E cheia de frio, me esquento em você.

Sua dama de gelo, sempre fria como a pedra da lápide.
Pede que você a leve para longe de onde o vento gélido sopra,
E espalha as folhas mortas.

Flores coloridas para fantasmas de crianças…
E não somos todos crianças, brincando com flores coloridas?

Querido, meus devaneios…
Meus cabelos multi-coloridos….
Meus delírios o confundem?
Fiquei calmo,
Tente entender.
Dentro de mim há um Mundo,
Onde não há rei ou rainha.
Há apenas uma festa eterna,
E Sonho ás vezes tenta organizar as coisas.

Querido, a eternidade passa num piscar de olhos
E o Destino quem faz somos nós.

Seguimos em frente!
Cortando as ondas!
Eu e você.
Até onde o Mar não mais exista.
E as estrelas caiam como papel picado.
Até o Fim do Mundo
Até Outros Mundos.
Até quando o Fim nos encontrar.

Sua Gisele.

 
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Publicado por em julho 28, 2009 em Poesia

 

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Poesia: Sua Julieta Gótica

Querido humano (ou será que não)
Será que somos iguais?
Criaturas obtusas. Coisas raras e bizarras.
E sempre com tanto medo dos humanos.
Esses vis seres a nos perseguir. Século após século.
E nós apenas nos defendemos.
Matando e nos matando, a cada segundo.

E que tipo de criatura será você?
Hoje uma humana me fez pensar.
Hoje esta humana olhou por através das fendas.
Das fendas da minha máscara de gesso.
E viu a pedra fria da face do gárgula.
Viu a macia pele pálida do vampiro.
Viu o pelo lustroso do lobo infernal.

Hoje esta humana me viu como sou.
E ela se assustou!
Saiu correndo, aterrorizada.
Temendo por sua alma. Temendo por sua integridade.
Com medo que minha monstruosidade pudesse corromper seu caráter.
Talvez com medo de si mesma. Quem saberá?

Querido monstrinho,
Doce monstrinho,
Meu monstrinho inspirador,
Hoje a humana viu que meu interior e meu exterior finalmente combinam.

Querido anjo,
Meu doce anjinho de asas negras e olhar desesperado,
Não me magoe mais. Estou suficientemente machucada.
Não me maltrate mais. Não mais se divirta as minhas custas.
Sou apenas uma pobre criatura à espera de meu par perfeito.
Tão imperfeito quanto eu.

Querido Monstrinho, então humano,
Fiquei aterrorizada com ela. Sabia?
E preciso de você.
Se não com você, com quem mais poderei chorar,
Quando minhas cobaias humanas perecerem,
Quando minhas criaturinhas aladas saírem voando?

A humana espremeu sua bílis em meus olhos.
Envenenou minha água.
Matou-me de fome.
Fechou-me num círculo mágico.
Feito de giz e pó de tijolo.

Me afastou para longe dela, e para longe de você.
Mas meus olhos machucados ainda alcançaram os seus.
Minha visão turva ainda pôde ver você.
Minhas mãos ainda alcançaram você.
E meu pensamento extrapolou esse círculo.

Sua Julieta gótica não se dá por vencida.
Sua Julieta morta, que passeia por cemitérios,
Não atura humanos arrogantes.
Tão cheios de si, quem pensam que são?
Meu Romeu vitoriano, o veneno não te matou.
A adaga não me cortou.
Pereceremos de outra forma.
Bem longe daqui.
Junto ao construtor de sonhos,
Em outra dimensão.
Longe de humanos e humanas,
Que simplesmente não nos compreendem.

Querido monstrinho,
Sei que nada é para sempre,
Mas algumas escolhas são eternas.
Duram uma vida. Algumas vidas.
Mas quem sabe mensurar a eternidade?

Poisoned kisses,

Anita.

 
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Publicado por em julho 28, 2009 em Poesia

 

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