Olá meninos e meninas, como vocês estão?
Faz tempo que não nos falamos, não é?
Não estou mencionando uma conversinha casual, mas sim um longo papo… Uma conversa de adultos. Só eu e você. Lembra de como costumava ser? Eu estou quase esquecendo…
Nesse momento é difícil dizer como estou agora.
Sabe aquelas horas em que você simplesmente quer sair correndo e não voltar nunca mais? Aqueles momentos em que você quer fechar os olhos, quer chorar, quer gritar?
Observo a mim mesma e não me reconheço, por isso não tenho como dizer como estou. Do mais puro ódio, pulo para a mais fria indiferença, e depois para uma tristeza originada da saudade que corta meu coração. Não apenas corta, dilacera.
Engraçado como nada de novo me magoa mais. É o passado que me machuca. Hoje, agora, nada disso mais importa. Não tem mais o mesmo peso, não me afeta. Não me aflige, nem mesmo me emociona. Estou eu perdendo o pouco de humanidade que ainda me restava? Certamente estou mais próxima dos animais do que dos humanos como nunca. A honestidade e a doçura nos olhos de um gato, isso sim me emociona. Por isso me cerco deles. Os guardiões do submundo. Guardas de um portão negro e aterrador. Meus protetores. E seus, também, goste você ou não.
É estranho querer fugir de si mesmo, por mais comum que esse sentimento seja hoje em dia. Feliz foi Alice que conseguiu achar um mundo mais sem nexo do que seu próprio!
Alice e seu coelho apressado, ou lebre, não lembro. O que sei é que não está frio suficiente para nevar mais ainda assim há neve suficiente para mim…
E o Mundo continua sereno.
Estão achando que estou ficando louca, né?
Estou ouvindo “Muse”, em especial “Blackout”. É por isso.
Há alguns dias decidi ouvir “Estranged”. E nossa! Essa é de enlouquecer. Mas se encaixou com meu humor no dia.
O Sol já havia partido, e a Lua era um disco de luz sobrenatural iluminando uma noite fria e barulhenta.
Nas ruas, polícia, bêbados, e todo o tipo de criatura que só emerge após as dezoito horas ou quando os bárbaros decidem festejar.
E eu que costumava adorar esse tipo de orgia, me senti enojada, e corri para a casa, assustada, alarmada como uma lebrezinha fugindo do lobo mau.
Imaginem só: Axel berrando nos meus ouvidos, minha mente num rodopio de lembranças, como flashbacks se misturando uns aos outros, palavras, rostos, tudo junto, numa torrente de informações que a música descarregava no meu cérebro, acorde por acorde. De repente toda aquela gente parecia perigosa demais, e tão dificil de entender.
Eu, que costumava passear tranquilamente por aquelas ruas, corria, esgueirando-me pelas sombras, sonhando com o silencio por trás das minhas paredes.
Policiais como cavaleiros negros, armaduras pesadas, espadas de fogo. Seus carros, cavalos demoníacos, os olhos vermelhos brilhando, crinas esvoaçantes.
Ao meu redor, mouros, visigodos, vikings, egípcios.
Reis e rainhas pretendendo ser do povo.
Será que eu também havia caído num tipo de toca? Só que aquela realidade não era nada divertida.
Respirei aliviada quando consegui trancar-me dentro de casa. Minha casa.
Meu templo.
No escuro, lancei minhas armas ao chão e segui para a janela. Tudo aquilo terminaria com algum castelo em chamas, e um sacrifício ao amanhecer. Como sempre.
Tudo bem. Ao menos eu estava segura.
Dá pra imaginar alguém como eu, numa situação como essa?
Ao mesmo tempo em que estou ficando cada vez menos humana, estou temendo mais os humanos.
Talvez seja normal.
Talvez esteja na hora de procurar Midiam, a lendária cidade de Clive Barker. Se você não leu algo escrito por ele, pesquise. Vale a pena. “Hellraiser” te diz alguma coisa? Acho que não há ninguém que melhor descreva o Inferno como o velho Clive. Não que eu tenha estado lá, para comprovar. Mas tenho uma idéia de como seja, e acredito que você também.
Um momento.
Estou me perdendo novamente.
Dá até vontade de rir…
Bom, estou longe de minhas amadas torres da igreja, por tempo indeterminado, isso não é novidade…
Mas estou em outro ambiente agora… Igualmente antigo, belo, uma antiga estação de trem.
Lá não há vista para o mar.
Lá não há o calor do Sol.
E eu não consigo ver meus queridos humanos através de suas vidraças tão frágeis.
Bom, é um lugar para pousar.
Há humanos, mas por enquanto não vejo nada que me interesse ao menos observar, quem dirá proteger.
Acho mesmo que não vou encontrar outros humanos como aqueles. Meus queridos meninos e meninas, que amei e continuo amando. Aqueles a quem eu assistia da torre da igreja.
Por isso repito: Como um corvo negro e agourento, do mais puro ódio pulo para a mais fria indiferença, e depois para uma tristeza originada da saudade que corta meu coração. Não apenas corta, dilacera. Mas minhas garras estão prontas. E apesar de tudo, eu ainda sei usá-las.
Bloody kisses…
Anita.

