Querido humano (ou será que não)
Será que somos iguais?
Criaturas obtusas. Coisas raras e bizarras.
E sempre com tanto medo dos humanos.
Esses vis seres a nos perseguir. Século após século.
E nós apenas nos defendemos.
Matando e nos matando, a cada segundo.
E que tipo de criatura será você?
Hoje uma humana me fez pensar.
Hoje esta humana olhou por através das fendas.
Das fendas da minha máscara de gesso.
E viu a pedra fria da face do gárgula.
Viu a macia pele pálida do vampiro.
Viu o pelo lustroso do lobo infernal.
Hoje esta humana me viu como sou.
E ela se assustou!
Saiu correndo, aterrorizada.
Temendo por sua alma. Temendo por sua integridade.
Com medo que minha monstruosidade pudesse corromper seu caráter.
Talvez com medo de si mesma. Quem saberá?
Querido monstrinho,
Doce monstrinho,
Meu monstrinho inspirador,
Hoje a humana viu que meu interior e meu exterior finalmente combinam.
Querido anjo,
Meu doce anjinho de asas negras e olhar desesperado,
Não me magoe mais. Estou suficientemente machucada.
Não me maltrate mais. Não mais se divirta as minhas custas.
Sou apenas uma pobre criatura à espera de meu par perfeito.
Tão imperfeito quanto eu.
Querido Monstrinho, então humano,
Fiquei aterrorizada com ela. Sabia?
E preciso de você.
Se não com você, com quem mais poderei chorar,
Quando minhas cobaias humanas perecerem,
Quando minhas criaturinhas aladas saírem voando?
A humana espremeu sua bílis em meus olhos.
Envenenou minha água.
Matou-me de fome.
Fechou-me num círculo mágico.
Feito de giz e pó de tijolo.
Me afastou para longe dela, e para longe de você.
Mas meus olhos machucados ainda alcançaram os seus.
Minha visão turva ainda pôde ver você.
Minhas mãos ainda alcançaram você.
E meu pensamento extrapolou esse círculo.
Sua Julieta gótica não se dá por vencida.
Sua Julieta morta, que passeia por cemitérios,
Não atura humanos arrogantes.
Tão cheios de si, quem pensam que são?
Meu Romeu vitoriano, o veneno não te matou.
A adaga não me cortou.
Pereceremos de outra forma.
Bem longe daqui.
Junto ao construtor de sonhos,
Em outra dimensão.
Longe de humanos e humanas,
Que simplesmente não nos compreendem.
Querido monstrinho,
Sei que nada é para sempre,
Mas algumas escolhas são eternas.
Duram uma vida. Algumas vidas.
Mas quem sabe mensurar a eternidade?
Poisoned kisses,
Anita.


