Querido humano,
Os meses pesam como séculos.
Será que você sente o mesmo?
Fui banida.
Mas quando o Sol se põe eu posso surgir.
E quando você vai embora, eu chego.
Ainda consigo sentir você por lá.
Observo o lugar em que você esteve a pouquíssimo tempo.
A luz florescente. Tão estéril.
Não ouso me aproximar, não ouso tocar em nada.
Quando o Sol se esconde e a Lua reina no Céu,
É quando eu me levanto e sigo seus passos.
Observo tudo para o que você olhou durante o dia.
Quando aquelas janelas refletiam a luz do dia.
O dia, que já não representa muita coisa para mim.
O dia, que passa tão rápido agora.
Como areia entre meus dedos.
Ai de mim! Carregada de auto-piedade!
Quando será que isso vai acabar?
Querido, sinto tão a sua falta.
O Destino, ou algo do tipo, nos separou.
E da forma mais terrível possível.
Como quando se arranca um esparadrapo,
De uma ferida ainda aberta.
Querido, não consigo chorar. Não mais.
Tanto aconteceu nesse meio tempo.
Vivi e morri mil vezes.
E agora já não sei como estou.
Descobri que além disso, além do que eu tinha,
Não existe mais nada.
Sigo, inventando uma vida para mim.
Sigo, sonâmbula, batendo contra as paredes,
Para encontrar o caminho de volta.
Nem que seja o caminho mais longo.
Querido, minha vida tem sido uma enxurrada.
Eu, agarrada num poste, enquanto a água passa.
Eu, em meio à uma tempestade eterna.
Nada se mantém. Nada e ninguém fica.
Mas nessa confusão de despedidas, é de você que eu sinto mais falta.
Eu me via em você.
E por isso concluía que havia esperança para mim.
Estou só. Como sempre.
Aqui estou. Desaparecendo, para surgir diferente.
Tornando cinza para renascer outra eu.
Estou cansada disso.
Yours trully,
Anita.