Meu querido humano,
Aqui fala Anita, depois de tanto tempo.
Sabe, as vezes acho que estamos dançando
E parece uma compassada valsa, requintada dança, com passos regulares.
Mas que tédio!
Noutras vezes, dançamos Tango, apaixonado ritmo, corpos entrelaçados
Ciúme, sangue, morte.
Tão assustador!
No entanto, o que mais me preocupa é quando não estamos dançando.
Quando me parece que ao menos estamos de mãos dadas
Ao menos, caminhando lado a lado.
Querido, está amanhecendo, e eu espero que você esteja bem.
O céu está tornando azul-marinho, e depois roxo,
Os pássaros estão acordando
Os humanos ainda repousam
Eu estou aqui. Uma coruja, assistindo à madrugada
A mente em disparada. Correndo contra pensamentos sombrios
Pensando em presas ternas e saborosas
Do alto da torre de uma igreja em ruínas
Querido, sonhe! Solte-se!
Acredite que qualquer coisa pode ser real
Acredite que fadas existem
Acredite que podemos mudar nosso destino
A qualquer momento, de qualquer forma
É nosso direito buscar o pote de ouro
Desvendemos o Pais das Maravilhas!
Deixemo-nos carregar para a Terra de Oz!
Ou a Terra do Nunca…
Mas definitivamente, deixemos o Sempre para trás!
Pois o sempre é sempre irritante.
O eterno é muito longo
E o jamais, mentiroso.
Querido humano, em sua terna idade
Você já é um vencedor
Querido, com seus fantasmas e correntes
Você ainda consegue caminhar
Querido, com seu esforço para se adaptar
Você cativa a tudo e a todos
Estamos num baile de máscaras, tente entender.
Todos os dias, caminhando por entre mortais com nossas fantasias
Nossos sonhos, enjaulados em gaiolas de ouro,
Tornando cinza e renascendo a cada segundo.
Estamos uma terra estranha,
Onde sempre seremos estrangeiros,
Onde nunca seremos bem-vindos,
Onde cortamos nossas asas para não atrapalhar a passagem.
Querido, a janela dos seus olhos é de puro cristal
Sonoro, límpido, assustador.
Mais do que olhos de ressaca, olhos de tormenta.
Mais do que doces expressões, olhares de reprovação.
As vezes, Jesus para uma criança. Olhar de piedade.
As vezes, humilde peregrino que, para uma santa, olha com devoção.
Mas querido, quase sempre esses olhos observam uma rosa sem nome, adornada com outras rosas esmagadas,
E esses olhos vêem através da seda carmim, das penas de pássaro, do granito da estátua.
E chegam aos laçarotes e rendas cor-de-rosa da menina, escondida lá no fundo. Chorando e gritando, por ver que seu brinquedo de cristal espatifou-se no chão.
Ah, querido humano. Doce e saboroso humano.
As veias repletas do sangue dos justos….
Demora a amanhecer por aqui. O vento gélido eriça minhas penas.
Ao longe espreito um ratinho suculento,
Mas o deixo para os gatos.
Querido, quando o Sol nascer, estarei livre dessa forma.
Caminharei pelas ruas, tal qual você caminha.
Claro, há o inconveniente da máscara, mas isso é apenas um detalhe.
Já estou acostumada.
O fato é que meu lugar é aqui. Aqui em cima, e será por muito tempo.
Entre as sombras, escondida, observando,
Quando será nosso próximo encontro?
Quando dançaremos de novo?
Valsa? Tango?
Ou talvez uma dança medieval,
Tocando as mãos, como Romeu e Julieta.
Talvez apenas uma rápida troca de olhares.
Sinceramente, espero que você esteja bem
Que minhas garras não tenham te ferido muito
Não sou muito boa em alçar vôo com uma carga sob as patas
Ao menos não que não vá devorar em seguida
Espero que os cortes tenham sarado.
Espero que nos vejamos novamente.
Aqui ou ali.
Ou nos meus sonhos.
Dançando descompassado ou não.
Mas ao menos, juntos.
Yours trully,
Anita.
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